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O teto que as empresas familiares constroem com o próprio sobrenome

O teto que as empresas familiares constroem com o próprio sobrenome

Existe uma barreira invisível que não aparece em nenhum organograma, não consta em nenhum regulamento interno e raramente é mencionada nos processos seletivos. No entanto, existe com a precisão de uma política escrita. Chama-se o teto do sobrenome: a percepção — muitas vezes correta — de que em uma empresa familiar os cargos de maior responsabilidade têm dono antes mesmo de o processo começar.

Ricardo MendietaRicardo Mendieta11 de maio de 20268 min
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O teto que as empresas familiares constroem com o próprio sobrenome

Existe uma barreira invisível que não aparece em nenhum organograma, não consta em nenhum regulamento interno e raramente é mencionada nos processos seletivos. No entanto, ela existe com a precisão de uma política escrita. Chama-se o teto do sobrenome: a percepção — muitas vezes correta — de que em uma empresa familiar os cargos de maior responsabilidade têm dono antes mesmo de o processo começar. O sobrenome funda a empresa, mas com o tempo também a fecha.

O Financial Times cunhou o termo com precisão cirúrgica. A lógica é direta: se um profissional altamente qualificado avalia duas propostas comparáveis em remuneração e escopo, e uma delas pertence a uma empresa onde o topo da estrutura diretiva é hereditário, a decisão costuma pender para onde o próprio mérito pode chegar mais longe. Não é ressentimento, é cálculo.

O que transforma esse padrão em um problema estratégico de primeira grandeza não é o agravo simbólico. É a evidência de que as empresas familiares norte-americanas estão experimentando uma desaceleração concreta em seus resultados, e que boa parte dessa fricção provém de sua incapacidade de atrair e reter o talento de que precisam para competir.

O crescimento que se deteve e o que o explica

A pesquisa da PwC sobre empresas familiares nos Estados Unidos para 2025 documenta o seguinte: o percentual de empresas familiares que reportaram crescimento em vendas passou de 81% em 2023 para 52% em 2025. O crescimento de dois dígitos caiu para 17%, frente aos 25% registrados por seus pares globais. Não é uma contração, mas é um sinal de divergência que merece ser lido com atenção.

A narrativa mais confortável aponta para fatores exógenos: inflação, tensões geopolíticas, incerteza regulatória. E são fatores reais. Mas a PwC também indica que a resposta prioritária dessas empresas foi proteger margens e consolidar operações existentes, e não conquistar novas posições. 64% das PMEs familiares pesquisadas identificaram o fortalecimento do talento interno como uma prioridade para os próximos cinco anos, e esse número só faz sentido se se aceitar que o talento, hoje, é um ponto fraco.

A pergunta que esse dado não responde é quanto do problema de talento é consequência de salários insuficientes, quanto de gestão deficiente e quanto do teto do sobrenome. Mas a coincidência entre a estagnação do crescimento e a dificuldade declarada para fortalecer equipes não é trivial. As empresas que não conseguem preencher suas posições críticas com os melhores disponíveis não crescem porque não conseguem executar. E as que não conseguem crescer começam a proteger o que têm, que é exatamente o movimento descrito pelos dados da PwC.

Há ainda uma assimetria geográfica que agrava o diagnóstico. Enquanto as empresas familiares globais priorizam alianças estratégicas internacionais para ampliar seu alcance, as norte-americanas se concentram no mercado doméstico. A expansão do mercado local lidera suas prioridades de investimento, com 86% de preferência. Isso não é necessariamente um erro, mas revela um instinto defensivo que, combinado com a dificuldade de atrair talentos externos, produz organizações que dependem cada vez mais de sua própria circularidade.

O que a governança familiar faz bem e o que protege em excesso

Seria impreciso sustentar que o modelo de empresa familiar é inerentemente inferior. Há argumentos sólidos em seu favor: horizontes de investimento mais longos, menor pressão dos mercados de capitais para otimizar o trimestre, culturas organizacionais com identidade mais estável. Empresas com proprietários familiares demonstraram resiliência em ciclos nos quais corporações dispersas em acionistas anônimos reagiram com cortes erráticos.

O problema não é o modelo. O problema é quando o modelo confunde estabilidade com imobilidade.

O planejamento sucessório ilustra bem essa tensão. Segundo a PwC, 44% das empresas familiares relataram ter sofrido impactos concretos em suas operações relacionados à sucessão no último ano. Não é um número anedótico. A sucessão em uma empresa familiar não apenas transfere o controle acionário: também define implicitamente até onde pode chegar alguém que não carrega o sobrenome. Quando esse processo é gerido sem critérios profissionais claros, ele emite um sinal que os melhores candidatos externos leem com precisão antes de assinar o contrato.

As empresas familiares que conseguiram reter talentos de alto nível compartilham uma característica que não exige abandonar o controle familiar: separaram com nitidez a propriedade da direção executiva. Criaram estruturas nas quais um executivo sem o sobrenome fundador pode chegar à máxima responsabilidade operacional, com autoridade genuína e remuneração competitiva. Isso não dilui a identidade familiar da empresa; a protege, porque garante que a gestão esteja nas mãos de quem pode fazê-lo melhor, e não de quem nasceu com o direito.

As que não fizeram essa separação não necessariamente fracassam de imediato. Mas constroem uma desvantagem acumulativa que leva anos para se materializar e que, quando o faz, costuma ser confundida com má sorte ou com condições de mercado adversas.

Talento como arquitetura, não como recurso

A prioridade de 64% no fortalecimento do talento interno registrada pela PwC tem uma leitura superficial e uma leitura mais incômoda.

A leitura superficial diz que as empresas familiares estão conscientes do problema e trabalhando nele. Isso pode ser verdade. Mas também pode significar que estão investindo no desenvolvimento do pessoal que já têm, sem resolver o problema estrutural de por que os melhores perfis externos não chegam ou não ficam.

Fortalecer o talento interno sem modificar as regras de ascensão é como construir estradas melhores que não levam a nenhum destino novo. O esforço é visível, o resultado é circular.

O investimento em ferramentas digitais e inteligência artificial que a mesma pesquisa reporta — com cerca de 33% das empresas priorizando tecnologia de acompanhamento de desempenho — tampouco resolve o problema de fundo se os critérios de ascensão continuarem opacos ou dependentes do vínculo familiar. Medir melhor pessoas que sabem que o teto existe não melhora seu comprometimento com a organização; simplesmente documenta com maior precisão por que elas eventualmente vão embora.

O que de fato muda a dinâmica é quando a empresa familiar trata o talento como arquitetura organizacional, com a mesma seriedade com que trata a estrutura acionária ou o planejamento tributário. Isso implica definir explicitamente quais posições são passíveis de ser ocupadas por executivos externos, em quais condições e com quais incentivos reais. Implica criar mecanismos de remuneração que incluam participação nos resultados para gestores sem o sobrenome. E, sobretudo, implica aceitar a renúncia implícita que isso acarreta: o fundador ou a família precisam ceder parte do controle operacional para preservar algo mais valioso, que é a capacidade da empresa de competir no longo prazo.

O sobrenome pode fundar ou pode fechar

As empresas familiares que hoje lideram em seus setores não o fazem apesar de serem familiares. O fazem porque entenderam que o sobrenome funda a identidade da empresa, mas não pode ser a política de recursos humanos.

A diferença entre as que crescem e as que apenas se conservam está em uma decisão que poucas organizações são capazes de tomar com clareza: sacrificar o controle nominal sobre determinados cargos para ganhar a capacidade de atrair quem realmente pode ocupá-los. Essa decisão não é anunciada em um comunicado à imprensa. Ela se materializa no organograma, nos contratos dos executivos externos e nos critérios de ascensão que o pessoal pode ler sem que ninguém precise explicar.

Os dados da PwC mostram uma lacuna de crescimento entre as empresas familiares norte-americanas e seus pares globais que não se explica apenas pela macroeconomia. Uma parte dessa lacuna vive na estrutura de incentivos que essas organizações oferecem a quem não carrega o seu sobrenome. E essa parte da lacuna é a única que depende inteiramente de uma decisão interna. As empresas que entenderem isso antes de seus concorrentes não apenas resolverão um problema de talento: resolverão o problema estratégico que produz todos os demais.

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