Ar-condicionado: o negócio que resfria cidades e reaquece o balanço climático
O ar-condicionado nasceu como um símbolo de progresso: produtividade em escritórios, conforto em lares, resiliência diante de ondas de calor. No entanto, esse mesmo símbolo está prestes a se transformar em uma paradoxa contábil para o planeta e para qualquer empresa exposta a energia, construção, bens duráveis ou saúde pública.
Um estudo publicado na Nature Communications em 25 de fevereiro de 2026, por pesquisadores da University of Birmingham, projeta que o uso global de ar-condicionado mais que se duplicará até 2050, e que suas emissões poderiam chegar a 8,5 gigatoneladas de CO₂ equivalente por ano, superando as emissões anuais atuais dos Estados Unidos (5,9 GtCO₂-eq). Além disso, o uso de ar-condicionado contribuiria com um aquecimento adicional entre 0,03°C e 0,07°C até 2050, dependendo do cenário de emissões considerado. Essa magnitude é suficiente para alterar conversas sobre investimento, regulamentação e planejamento urbano na próxima década.
O inquietante é que esse problema não é um “luxo climático” fácil de desativar. A pesquisa também destaca uma desigualdade estrutural: as regiões mais expostas ao calor — como partes do Sul da Ásia e África — têm menos acesso ao resfriamento mecânico, enquanto regiões mais ricas mantêm maiores taxas de uso, apesar de terem necessidades térmicas comparativamente menores. Se os países de menor renda alcançassem o mesmo nível de acesso que os de maior renda, o impacto poderia somar 0,05°C adicional, mesmo no cenário mais favorável.
A curva de demanda já está escrita e o custo é pago pela eletricidade
A expansão do ar-condicionado não é uma hipótese de mercado; é uma trajetória apoiada por dados concretos. A IEA estima que as unidades residenciais se triplicaram desde 2000, chegando a mais de 1,5 bilhão de equipamentos em 2022. O estudo projeta que mais de 45% da população mundial poderá ter ar-condicionado até 2030, em comparação aos 37% em 2023.
Sob a perspectiva de negócios, essa parece uma história de crescimento “óbvia”: mais rendimentos em países emergentes, urbanização acelerada, mais ondas de calor e uma aspiração social legítima de viver e trabalhar sem estresse térmico. O problema é que o crescimento não vem sozinho: ele requer uma conta de eletricidade que, sob um cenário intermediário, poderia alcançar 4.493 TWh destinados ao resfriamento até 2050.
Esse número não é apenas uma estatística energética; é um sinal de pressão sobre redes, sobre custos marginais em horários de pico e sobre o preço do risco regulatório. Na prática, o ar-condicionado se comporta como uma demanda que dispara quando o sistema está mais tensionado: calor extremo implica máximo consumo, e máximo consumo eleva a probabilidade de picos de preços, cortes de energia e necessidade de investimentos em capacidade.
A lição estratégica é clara: quem vende equipamentos e quem opera edifícios está vendendo, em paralelo, uma obrigação futura sobre o sistema elétrico. Se o negócio é medido apenas em unidades vendidas, o mercado parece infinito. Se medido em custo total para a economia — energia, capacidade, manutenção e emissões — o mercado exige um redesenho.
O ciclo de retroalimentação: equidade térmica que ameaça metas climáticas
A pesquisa descreve um “ciclo” que o nível executivo deve enxergar como um dilema operacional: aumentar o acesso ao resfriamento em zonas vulneráveis protege a saúde e a produtividade, mas, ao mesmo tempo, pode impulsionar emissões e dificultar o cumprimento das metas climáticas globais.
Isso não é um argumento para limitar o acesso; é um argumento para mudar o produto e o sistema que o suporta. Quando um modelo de negócio é baseado em utilização intensiva de energia, o crescimento deixa de ser uma virtude automática. Ele se torna um multiplicador de risco.
Em termos de equidade, o problema é duplo. Primeiro, o calor extremo penaliza com mais força aqueles que têm menor capacidade de pagamento e habitações menos preparadas para dissipar calor. Segundo, quando a resposta predominante é vender mais equipamentos padrões, reforça-se uma dependência do consumo elétrico em lares que já operam com orçamentos frágeis. É uma forma silenciosa de extração: não ocorre com uma conta inicial alta, mas com o gasto acumulado mensalmente e com a vulnerabilidade às tarifas.
O estudo também lembra outro vetor de emissões que muitos comitês executivos ainda tratam como questão técnica secundária: os refrigerantes. Grande parte do parque instalado utiliza HFC, gases de efeito estufa potentes, que se emitem por vazamentos, manutenção inadequada ou disposição incorreta. O ponto não é demonizar uma molécula, mas entender que o risco climático não está mais apenas no kilowatt-hora, mas na cadeia completa do equipamento.
Nesse contexto, iniciativas como a Emenda de Kigali — em vigor desde 2019 — são importantes, pois visam cortar o uso de HFC em mais de 80% nos próximos 30 anos. Porém, mesmo um sucesso regulatório nesse sentido não elimina o componente maior: a energia. O crescimento do resfriamento exige uma solução que combine eletricidade mais limpa, maior eficiência, design de edifícios e melhores práticas de uso.
A grande oportunidade não é vender mais equipamentos, mas vender menos calor
Vi muitas indústrias confundirem volume com valor. O ar-condicionado está prestes a cair nessa armadilha em escala planetária.
O estudo propõe quatro linhas de ação: transição rápida para eletricidade limpa, adoção de refrigerantes de baixa contaminação, melhor design de edifícios com isolamento e sombreamento, e mudanças de comportamento, como aumentar a temperatura desejada ou deslocar consumo fora dos horários de pico. Essa lista soa “óbvia” até que se traduz em incentivos empresariais.
A real oportunidade está em redesenhar a proposta comercial para que o fornecedor ganhe dinheiro quando o cliente consome menos energia, e não quando consome mais. Isso implica mudar o que é vendido:
- Do “equipamento” à solução térmica do edifício. Se o produto continuar sendo uma caixa na parede, o incentivo será colocar mais caixas. Se o produto é conforto medido e garantido, o incentivo passa a ser isolamento, sombreamento, selos, controle inteligente, manutenção e eficiência.
- Da venda única ao recebimento recorrente vinculado ao desempenho. Na economia do resfriamento, o grande custo ocorre durante a operação. É aí que um modelo de serviço pode capturar valor e, ao mesmo tempo, reduzir emissões.
- Do crescimento subsidiado ao crescimento por pagamento do usuário. O acesso equitativo ao resfriamento não é alcançado com programas eternos que fornecem equipamentos sem resolver operação e manutenção. É atingido com ofertas que transformam o gasto mensal de energia em um pagamento previsível por conforto eficiente, com financiamento compatível com rendimentos variáveis.
Na prática, isso abre espaço para alianças entre fabricantes, concessionárias, incorporadoras e cidades, pois o valor é compartilhado. A empresa que reduz picos de demanda diminui a necessidade de investimento em rede. O edifício eficiente reduz o absenteísmo e melhora a produtividade. O fabricante que migra rapidamente para refrigerantes e eficiência protege sua licença para operar.
Adicionalmente, o mercado é enorme. A IEA projeta que serão vendidos dez novos equipamentos por segundo nos próximos 30 anos. Quando um mercado cresce nessa velocidade, o padrão técnico que se impuser hoje se torna uma infraestrutura moral e financeira por décadas. Mudar especificações, manutenção e fim da vida útil é, literalmente, moldar emissões futuras.
Mandato executivo: transformar resfriamento em uma estratégia de resiliência e margem
O estudo de Birmingham coloca números em uma realidade que os comitês de risco já estão percebendo: o resfriamento é saúde pública, produtividade e demanda elétrica crítica. Também é um multiplicador de emissões se deixado no piloto automático.
Para o nível executivo, o caminho pragmático se organiza em três frentes. Primeiro, eficiência como produto, não como campanha: especificações superiores, controle de vazamentos e manutenção profissional reduzem custos de ciclo de vida e risco regulatório. Segundo, edifícios que rejeitam calor: isolamento, sombreamento e design reduzem o tamanho dos equipamentos e gastos operacionais; é o tipo de investimento que se paga com a conta mensal, não com discursos. Terceiro, modelo de acesso digno: o crescimento em regiões vulneráveis deve ser financiado com estruturas de pagamento que não colapsam na primeira crise, pois o calor não espera os orçamentos públicos.
O resfriamento será um dos grandes negócios do século e também um dos seus maiores desafios éticos. A única estratégia aceitável para uma empresa que deseja perdurar consiste em auditar sua equação central com frieza executiva: deixar de usar as pessoas e o ambiente como insumos para gerar dinheiro, e usar o dinheiro como combustível para elevar as pessoas com soluções térmicas limpas, eficientes e acessíveis.











