Sair da falência não é uma vitória: é aceitar tarde a conversa que a companhia aérea evitou

Sair da falência não é uma vitória: é aceitar tarde a conversa que a companhia aérea evitou

Um CEO pode prometer uma saída rápida da recuperação judicial, mas o mercado só acredita em uma coisa: uma estrutura de custos que não dependa de heroísmo.

Simón ArceSimón Arce26 de fevereiro de 20266 min
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Sair da falência não é uma vitória: é aceitar tarde a conversa que a companhia aérea evitou

A Spirit Airlines volta a se apresentar com uma nova roupa: o CEO afirma que a companhia aérea de baixo custo espera sair de seu segundo processo de recuperação judicial no próximo verão. A notícia, divulgada pela Fortune, não vem acompanhada de uma epopeia de “salvamento” nem de um relato sentimental de sobrevivência. Vem com o que realmente importa quando uma companhia entra na sala de cirurgia pela segunda vez: um acordo em estágio inicial que ajudaria a Spirit a finalizar mudanças em sua frota, sua rede de rotas e sua estrutura de custos.

Esse trio — ativos operacionais, design de rede e custos — é o esqueleto de qualquer companhia aérea. E quando o esqueleto é redesenhado sob proteção judicial, o que fica exposto não é apenas uma má temporada ou uma conjuntura adversa. O que fica exposto é uma conversa que não foi realizada a tempo, com a sinceridade necessária, quando ainda havia espaço para escolher.

No que se refere à liderança, o problema raramente é a falta de informação. É a incapacidade de sustentar, diante do conselho e de si mesmo, a frase que desarma a autoilusão: isso que nos trouxe até aqui já não vai nos levar a mais longe. Em uma companhia aérea, essa frase tem tradução operacional imediata: a frota não se alinha com a demanda, as rotas não devolvem o capital e a base de custos não permite competir sem sangrar.

A recuperação judicial como confissão operacional, não como estratégia

A tentação da mídia é contar uma falência como uma jogada financeira. Para um executivo sério, a recuperação judicial é mais uma confissão operacional: o modelo deixou de ser sustentado pelas receitas disponíveis e pela estrutura herdada. Quando se trata do segundo processo, a confissão se torna mais desconfortável. O primeiro ciclo pode ter tido desculpas plausíveis, e não me interessa enumerá-las porque a notícia não as detalha. O segundo ciclo sinaliza um padrão: a organização aprendeu lentamente, ou aprendeu em partes, ou aprendeu de maneira politicamente tolerável, mas economicamente insuficiente.

O que Fortune descreve como um acordo que permitiria “finalizar mudanças” em frota, rotas e custos soa como o fechamento de três frentes que raramente podem ser movidas sem quebrar algo. Ajustar a frota não é um tema técnico isolado: implica compromissos com fabricantes e arrendadores, treinamento, manutenção, disponibilidade e, sobretudo, uma forma de prometer ao mercado uma experiência operacional consistente. Redesenhar rotas também não é “otimização”; é admitir que certas ambições — presença, crescimento, densidade — se tornaram um luxo. E tocar a estrutura de custos é entrar em um terreno que muitos conselhos temem: renunciar à fantasia de que o crescimento futuro pagará a ineficiência presente.

Por isso, digo que sair da falência não é uma vitória. É um certificado de que a empresa, sob pressão externa, se obrigou a dizer em voz alta o que internamente não se queria pronunciar. O mérito, se existir, não está no anúncio de saída. O mérito está em que a direção consiga transformar esse redesenho em um novo conjunto de promessas operáveis, mensuráveis e sustentáveis sem voltar a cair no teatro da resiliência.

O custo real de uma segunda oportunidade é o ego organizacional

Existe uma maneira cômoda de explicar uma crise repetida: o ambiente estava difícil, o mercado mudou, os custos subiram, a concorrência apertou. Tudo isso pode ser verdade e, ainda assim, ser irrelevante para o diagnóstico da direção. O ponto decisivo é outro: uma organização não cai duas vezes na mesma lógica se atreve a olhar para seu próprio espelho sem maquiagem.

Em companhias intensivas em ativos, como uma companhia aérea, o ego se expressa com uma máscara respeitável: planos de cinco anos, projeções que dependem de “normalização”, narrativas de escala e eficiência que só aparecem em apresentações. O ego nem sempre grita; às vezes, sussurra que o problema é temporário e que a equipe “já tem controle”. O resultado prático é o adiamento da conversa que dói: a de abandonar rotas que se ama por história ou por política interna, a de reconfigurar frota mesmo que implique reconhecer que se tomou uma decisão imperfeita, a de enfrentar custos estruturais que eram defendidos como “necessários para crescer”.

A notícia indica que o acordo ajudaria a finalizar mudanças. Essa palavra — finalizar — é reveladora. Sugere que as mudanças estavam em andamento ou pelo menos definidas, e que faltava o fechamento institucional e financeiro. Em termos humanos, “finalizar” geralmente significa que já não basta a negociação lateral. É necessário uma autoridade que consiga fazer a organização escolher, renunciar e executar.

Não atribuo intenções nem culpas pessoais; a fonte não as oferece e não me cabe inventá-las. Mas o padrão é conhecido em qualquer indústria com alto apalancamento operacional: a liderança paga um preço por evitar o conflito interno precoce, e esse preço se multiplica quando a correção vem sob a forma de falência. A recuperação judicial organiza o que a cultura não conseguiu organizar. E quando a cultura não consegue ordenar, o problema não é de contabilidade: é de governança, incentivos e coragem.

Frota, rotas e custos: o triângulo onde se prova a maturidade da liderança

No fundo, o “plano” que se desprende do briefing é uma reescrita do triângulo essencial de qualquer companhia aérea: quais aviões, em quais rotas, com quais custos. Parece óbvio. Não é. Cada vértice está protegido por interesses internos, por legados de decisões passadas e por promessas que alguém fez para cima e para fora.

Uma frota não é apenas uma lista de aeronaves. É uma forma de operar. Define quanta flexibilidade a empresa tem para ajustar a capacidade, quão complexa se torna a operação diária e quão caro sai cada desvio do plano. Uma rede de rotas não é um mapa; é uma hipótese sobre onde existe demanda real capaz de pagar a estrutura. E a estrutura de custos não é um número; é uma biografia organizacional: tudo o que se tolerou, tudo o que se remendou, tudo o que se deixou crescer porque “ainda não era prioritário”.

Por isso, o acordo inicial é importante, mesmo sem detalhes públicos adicionais no material fornecido. Se a Spirit conseguir sair neste verão, a saída será um marco. Mas o mercado não premia marcos; premia consistência. Uma companhia aérea de baixo custo não pode se dar ao luxo de ter uma identidade confusa entre ser barata, ser flexível e ser ampla. Tentar ser as três ao mesmo tempo costuma transformar a operação em uma coleção de exceções, e as exceções são custos escondidos.

A liderança madura se revela quando aceita que a estratégia não é escolher uma narrativa, mas escolher restrições. Na aviação, a restrição mais honesta é esta: a margem é conquistada na disciplina operacional, e não na esperança. Redesenhar frota, rotas e custos sob falência pode produzir uma empresa mais leve, sim, mas apenas se a direção deixar de gerenciar para acalmar a todos e começar a gerenciar para cumprir promessas duras: pontualidade operável, capacidade bem alocada, custos que não disparam toda vez que o plano se quebra.

O que o mercado irá punir depois do anúncio é a recaída na comodidade administrativa

Há um risco silencioso em qualquer saída de recuperação judicial: confundir o alívio financeiro com a resolução cultural. O alívio é real; a cultura raramente muda ao mesmo ritmo. O primeiro trimestre após a saída costuma vir com uma energia que se interpreta como “volta”. A organização respira. O conselho se relaxa. O hábito de adiar conversas desconfortáveis é reinstalado.

A notícia da Fortune fala sobre expectativas do CEO e sobre um acordo que habilitaria mudanças concretas. A partir daí, o desafio é menos espetacular e mais brutal: sustentar a disciplina quando já não há um juiz nem um processo forçando a tomar decisões. O custo mais caro de uma segunda falência é que reduz a credibilidade interna. As equipes escutam planos com uma memória detalhada de promessas anteriores. A direção, se for inteligente, não tenta apagar essa memória; a incorpora.

Em companhias aéreas de baixo custo, a estrutura é frágil por design: compete-se com preços, e a margem é defendida com processos padronizados e utilização eficiente. Isso deixa pouco espaço para erros repetidos. Se a saída se basear apenas em renegociações e não na execução diária, o sistema volta ao mesmo lugar. E quando o mercado sente que a companhia depende de heroicidades — pessoas apagando incêndios — a avaliação encolhe, embora o comunicado soe otimista.

A saída da falência, então, é o início da verdadeira prova de liderança: manter a coerência entre o que se promete e o que se opera. Não basta anunciar um redesenho. A maturidade se mede na capacidade de evitar o retorno da política interna que expande rotas por prestígio, preserva custos por medo do conflito e mantém frota por lealdade a decisões anteriores.

A cultura de toda organização não é mais que o resultado natural de perseguir um propósito autêntico, ou o sintoma inevitável de todas as conversas difíceis que o ego do líder não permite ter.

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