Tokenização e ETFs não competem: um pavimenta a estrada do outro

Tokenização e ETFs não competem: um pavimenta a estrada do outro

A ideia de que a tokenização irá eliminar os ETFs distrai de uma análise mais profunda: ambos compartilham o mesmo problema estrutural, e apenas um pode sobreviver.

Mateo VargasMateo Vargas4 de abril de 20267 min
Compartilhar

Tokenização e ETFs não competem: um pavimenta a estrada do outro

O mercado de gestão de ativos tem debatido a mesma pergunta sob diferentes ângulos: a tokenização baseada em blockchain vai substituir os ETFs? A resposta curta é que esta visão binária é o problema, e não a solução. Enquanto a indústria discute quem sairá ganhando, ignora-se o risco estrutural que ambos têm em comum.

Dados compilados pela Asset Tokenization indicam que o mercado de tokenização pode alcançar 2 trilhões de dólares até 2035. A McKinsey, por sua vez, projeta 1,9 trilhão para 2030 e 4 trilhões para 2035. Números que justificam discussões sérias em qualquer sala de executivos. Mas antes de se empolgar com o tamanho do mercado potencial, é essencial entender exatamente qual problema cada instrumento está resolvendo e qual é o custo real de não resolvê-lo.

Os ETFs construíram a estrada, mas o asfalto está se desgastando

O argumento central que circula entre os especialistas do setor é que os ETFs resolveram um problema estrutural legítimo: tornaram os mercados mais acessíveis, mais líquidos e dramaticamente mais baratos do que os fundos mútuos tradicionais. Isso é empíricamente verdadeiro. Porém, há uma parte do diagnóstico que é mencionada com menos frequência: os ETFs ainda operam sobre uma infraestrutura dos anos noventa.

Liquidação em T+1. Acesso condicionado a ter uma conta de corretagem. Operações limitadas aos horários de mercado. E uma barreira estrutural que raramente aparece nos relatórios de gestores: aproximadamente 7 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso a uma conta de corretagem. Não é um problema de produto. É um problema de infraestrutura de distribuição.

Aqui é onde a analogia da estrada se torna tecnicamente precisa. Os ETFs mais pareciam ter estendido o asfalto sobre o que anteriormente era uma estrada de terra. Contudo, o volume de tráfego mudou, as exigências de velocidade mudaram, e o asfalto que funcionava em 1993 não está dimensionado para o que está por vir. A tokenização não chega para demolir a estrada; ela vem para mudar a camada de rolamento. São problemas de engenharia distintos, com custos e prazos de implementação diferentes.

O risco para os atores estabelecidos não é que a tokenização os substitua amanhã. O risco é que comecem a perder margens nos segmentos mais lucrativos — investidores institucionais que valorizam liquidez 24/7 e liquidação instantânea — enquanto suas estruturas de custo fixo continuam calibradas para o modelo anterior.

A armadilha da narrativa de substituição

Quando uma tecnologia emergente surge, acompanhada de projeções de mercado que movimentam bilhões, a indústria tende a organizar o debate em duas trincheiras: aqueles que a defendem e os que a atacam. Ambas as posições são convenientes para vender seminários e rodadas de capital. Nenhuma delas é útil para tomar decisões operacionais.

O CEO da OpenAssets apresenta uma lógica que, desprovida do entusiasmo comercial habitual, resiste ao escrutínio analítico: a tokenização não corrige o que está errado com os ETFs; ela corrige o que está errado nas vias sobre as quais os ETFs operam. É uma distinção que parece semântica, mas tem implicações concretas para qualquer gestor de ativos que esteja avaliando onde alocar o orçamento de transformação tecnológica.

Atualizar a embalagem do produto é uma coisa. Trocar o sistema de liquidação, os protocolos de custódia e os mecanismos de distribuição é outra. A segunda tem um custo de implementação de ordens de magnitude maior, requer coordenação regulatória em múltiplas jurisdições e enfrenta resistência dos intermediários que hoje capturam as rendas do sistema legado.

Isso gera um padrão previsível: as instituições com maior exposição a esses intermediários irão agir lentamente, não por falta de visão, mas porque cada mês de atraso na adoção é um mês de receitas protegidas no modelo atual. Os incentivos estão alinhados com a inércia. Isso não é um julgamento de valor; é uma mecânica organizacional básica.

A coexistência como período de risco, não de equilíbrio

O cenário mais provável para um horizonte de cinco a dez anos não é a substituição dos ETFs, nem sua evolução limpa para versões tokenizadas. O cenário mais provável é uma fase de coexistência onde ambas as infraestruturas operam em paralelo, capturando segmentos distintos do mercado com estruturas de custo diversas.

Isso soa razoável no papel. Na prática, a coexistência tem um custo operacional que as análises otimistas costumam omitir: manter dois sistemas de liquidação, dois marcos de conformidade regulatória e duas pilhas tecnológicas simultaneamente não é de graça. Para gestoras médias, esse custo pode ser proibitivo sem uma estratégia de fases que defina exatamente quando e como migrar capacidades sem comprometer o negócio principal.

Os atores que sobreviverão bem a essa transição não são necessariamente os primeiros a tokenizar tudo. Eles são os que podem isolar seu núcleo de receita estável enquanto experimentam com estruturas tokenizadas em segmentos de menor risco regulatório. Um fundo de mercado monetário tokenizado é uma aposta muito distinta, em termos de exposição, do que tokenizar um ETF de ações com exposição a mercados emergentes. A granularidade importa.

As projeções da McKinsey e da Asset Tokenization são úteis para dimensionar o potencial de mercado, mas não são úteis para determinar em que ponto do período de transição uma estrutura específica passa de uma aposta controlada para uma carga de capital que coloca em risco a operação principal. Esse cálculo depende de variáveis que nenhum relatório de mercado pode generalizar: margem operacional atual, concentração de receitas por segmento, custo de capital e capacidade regulatória interna.

O filtro que separa as apostas sérias das declarações de posicionamento

Há uma maneira de distinguir rapidamente quais organizações estão levando a tokenização a sério como transformação de infraestrutura e quais estão usando o tema para alimentar narrativas de inovação sem comprometer capital real: observar onde está o orçamento de risco.

Uma empresa que anuncia uma iniciativa de tokenização mas não modificou sua arquitetura de custódia nem iniciou conversas regulatórias formais não está fazendo uma aposta de infraestrutura. Está fazendo comunicação corporativa. A diferença entre ambas tem um nome na contabilidade: ativos intangíveis sem valor contábil versus investimento de capital com cronograma de amortização.

O período de coexistência entre ETFs e estruturas tokenizadas vai durar mais do que os entusiastas projetam e custará mais do que os céticos antecipam. As organizações que atingirem a fase de convergência com balanços sólidos, estruturas de custo variável e capacidade regulatória construída de forma incremental serão as que poderão capturar o mercado quando a infraestrutura se estabilizar. Aqueles que sobreinvestirem em uma transição prematura, ou ignorarem completamente o sinal, terão menos margem para manobrar quando a janela operacional se fechar.

Compartilhar
0 votos
Vote neste artigo!

Comentários

...

Você também pode gostar