Crescimento por aquisições com margem em alta e gastos fora de controle: o sinal misto que deixa o Richards Group
Richards Group Inc. (TSX: RIC) publicou em 6 de março de 2026 seus resultados preliminares não auditados de 2025. Esses resultados servem como um guia útil para qualquer líder financeiro que deseje diferenciar crescimento real de crescimento “comprado”. O título chama atenção: +5,5% de receitas, alcançando CAD 430,2 milhões. No entanto, a letra miúda revela que esse avanço foi “principalmente devido a aquisições”, enquanto os receitas orgânicas caíram tanto em Healthcare quanto em Packaging.
Para mim, o que interessa menos é o aplauso pelo crescimento e mais a mecânica por trás dele. O ano de 2025 mostra uma combinação que costuma prever tensões na integração: a margem bruta melhora consideravelmente, mas o EBITDA ajustado cai. Em números: a margem bruta sobe para 41,9% (de 39,7%), enquanto o Adjusted EBITDAaL cai 3,7% para CAD 54,8 milhões, e sua margem baixa para 12,7% (de 14,0%). Quando a empresa vende “melhor” mas ganha menos a cada dólar vendido, o gargalo está no sistema de custos operacionais, não no produto.
Além disso, a companhia introduziu um novo relatório segmentado para seus dois negócios principais, Healthcare e Packaging, e substituiu a tradicional earnings call por um podcast para comentar os resultados preliminares. A forma de comunicação não muda o conteúdo: o ano de 2025 do Richards Group é um estudo de caso sobre como uma estratégia de aquisições pode melhorar a margem bruta e, ao mesmo tempo, degradar a rentabilidade operacional se a integração não converter gastos fixos em produtividade.
A aritmética do “crescimento comprado”: 5,5% para cima, orgânico para baixo
A cifra central é clara: CAD 430,2 milhões de receitas em 2025, CAD 22,4 milhões a mais que em 2024. Mas a decomposição é o que define a qualidade do crescimento. Richards reporta CAD 28,9 milhões de contribuição proveniente de aquisições, o que implica que o negócio existente, combinando tudo, não sustentou o aumento.
Em Healthcare, as receitas orgânicas caíram CAD 6,3 milhões (-3,2%) para CAD 189,0 milhões. A empresa atribui parte da queda a vendas não recorrentes de equipamentos de capital do ano anterior e a uma demanda mais fraca em estética. Já em Packaging, o orgânico caiu CAD 4,4 milhões (-2,1%), atingindo CAD 208,1 milhões, com um impacto mais visível no setor de alimentos e bebidas, que registrou um descenso de CAD 5,2 milhões (-5,4%). No quarto trimestre, o padrão se repete: receitas +5,8% até CAD 110,9 milhões, impulsionadas por CAD 14,9 milhões de aquisições, enquanto Packaging se contrai 15,5%.
Esse tipo de trajetória tem uma leitura simples para qualquer PME que esteja “comprando tamanho” ou pensando em fazê-lo: o crescimento por fusões e aquisições (M&A) funciona como um acelerador, mas também como um maquiador temporário se o crescimento orgânico estiver em declínio. Não é um julgamento moral; é matemática. Se o orgânico cai, a empresa depende de continuar adquirindo para manter a linha superior. Essa dependência pode ser estratégica e válida, mas só é sustentável se o comprador capturar sinergias rapidamente e converter esse tamanho em mais caixa, não em mais complexidade.
De fato, o Richards mostra um ponto a favor: continua gerando caixa e mantém um baixo nível de alavancagem. Sua dívida líquida é de CAD 52,8 milhões com um percentual de alavancagem de 0,96x sobre o Adjusted EBITDAaL. Esse equilíbrio lhe confere munição para comprar mais. A questão operacional que emerge dos números é outra: se o orgânico não se recuperar, cada nova aquisição terá que compensar não apenas a desaceleração do mercado, mas também o custo de operar uma plataforma mais pesada.
Margem bruta em alta, EBITDA em baixa: o inimigo está nos gastos operacionais
Poucas sinais são tão reveladoras quanto esta: margem bruta subindo e margem EBITDA caindo. Richards reporta CAD 180,2 milhões de lucro bruto em 2025 e uma margem de 41,9%, uma melhora significativa em relação a 2024. A própria companhia vincula essa expansão a aquisições de Healthcare com uma melhor mistura de margem.
Até aqui, a narrativa seria a ideal: compro negócios mais rentáveis, aumento margem e, portanto, deveria haver aumento na rentabilidade. Mas o EBITDA ajustado conta outra história. O Adjusted EBITDAaL cai para CAD 54,8 milhões e a margem diminui para 12,7%. A diferença entre uma narrativa e a outra são os gastos que crescem mais rápido que as receitas.
Os números publicados são contundentes. Venda e distribuição aumentam para CAD 82,1 milhões, de 69,8. Administrativos (antes de amortização) aumentam para CAD 31,2 milhões, de 25,1. A empresa atribui esse aumento à integração de aquisições e a uma maior dotação corporativa associada à transição de trust para corporation e ao escalonamento. Isso é plausível e comum. O que não é opcional é o resultado financeiro: se os gastos operacionais não se estabilizarem, a margem EBITDA continuará pressionada, mesmo que a margem bruta pareça “bonita”.
Por segmentos, a história se torna ainda mais clara. Healthcare entrega CAD 36,1 milhões de EBITDA ajustado segmentado, +15,3%. Packaging, por outro lado, cai para CAD 22,6 milhões, -23,4%. Ou seja: a expansão por aquisições trouxe margem, mas o motor Packaging perdeu força e arrastou o consolidado.
Para uma PME, essa assimetria serve como um alerta prático: quando um segmento compensa o outro, a tentação é “administrar” o problema por meio da consolidação. O risco é financiar um negócio fraco com o forte e normalizar que o grupo “dá” enquanto um segmento destrói eficiência. No caso da Richards, o novo relatório segmentado ajuda a evitar que o consolidado esconda essa dinâmica.
Caixa, capital de trabalho e o custo oculto de integrar aquisições
Um erro típico é olhar apenas para o EBITDA. Richards reporta fluxo de caixa ajustado livre de CAD 35,0 milhões em 2025, que usou principalmente para dividendos (CAD 15,1 milhões) e pagamento de dívida (CAD 12,4 milhões). Até aqui, disciplina: distribui e desapalanca. Além disso, reporta itens separados divulgados por CAD 7,8 milhões (custos de aquisição, conversão corporativa, defesa contra disputas de patentes, perdas por fraudes por engenharia social, etc.). Não corresponde extrapolar esses itens como “novo normal”, mas sim reconhecer que integrar empresas traz faturas reais e às vezes inesperadas.
O dado que mais me interesa em termos de estrutura financeira é o capital de trabalho. Richards fechou 2025 com CAD 90,1 milhões, um aumento de CAD 24,4 milhões em relação ao ano anterior. A explicação inclui inventário adquirido, compromissos de compra de inventário e pré-pagamentos sazonais para feiras comerciais no negócio OEM de healthcare.
Isso é integração em sua essência: o tamanho aumenta e, com ele, a necessidade de financiar inventário e ciclos operativos mais longos. Em uma empresa bem “financiada pelo cliente”, o crescimento costuma vir acompanhado de uma rotação saudável e recebimentos que sustentam a expansão. Quando o capital de trabalho se infla, a empresa pode continuar sendo rentável, mas precisa de mais caixa para operar o mesmo dólar de vendas.
Richards tem espaço por seu nível de alavancagem abaixo de 1,0x, mas o padrão é o mesmo que vejo em PMEs que adquirem distribuidores ou portfólios: no primeiro dia, melhora a cobertura de mercado; no nonagésimo, começa a realidade do inventário, a integração de sistemas e o custo comercial para manter contas. Se a organização não converter esse capital de trabalho em rotação superior, o crescimento será financiado por dívida ou diluição, e não por clientes.
Outro detalhe estrutural é que Richards realizou três aquisições por CAD 63,3 milhões em 2025, com CAD 5,0 milhões de consideração contingente. Isso acrescenta pressão à execução: a empresa comprou volume e agora o retorno depende de capturar eficiência operacional e manter preços em um ambiente onde o Packaging, especialmente nos Estados Unidos, enfrenta pressões macroeconômicas.
Uma lição útil para PMEs: o crescimento só vale se paga sua própria complexidade
A decisão da Richards de segmentar Healthcare e Packaging é mais do que uma mudança contábil. É um reconhecimento de que, com aquisições, o consolidado se torna uma ilusão perigosa. O ano de 2025 mostra que Healthcare melhora, Packaging se deteriora, e o grupo, em total, fica em um terreno intermediário: melhores margens brutas, mas pior margem EBITDA.
A mensagem operacional é clara. A empresa pode continuar adquirindo porque tem balanço para fazê-lo, mas o sucesso não está mais apenas no anúncio da compra. Agora, ele depende de três alavancas mensuráveis:
1) Disciplina de gastos: se as despesas de vendas, distribuição e administrativas crescerem mais rápido que a mistura de margem, o EBITDA continuará comprimido.
2) Recuperação do orgânico: quando o crescimento vem inteiramente de aquisições, a empresa se torna refém do pipeline de M&A. Isso eleva o risco de integração e dispersa o foco comercial.
3) Rotação de capital de trabalho: o aumento de CAD 24,4 milhões em capital de giro é o tipo de consumo silencioso que não aparece nas “principal” de receitas. A partir de determinado tamanho, a empresa não compete apenas com produto e preço, mas também com seu ciclo de caixa.
Richards também oferece um lembrete positivo: é possível adquirir sem destruir o balanço. Com 0,96x de alavancagem e CAD 35,0 milhões de fluxo de caixa livre ajustado, não há sinal de estresse imediato. Mas a direção das margens operacionais sugere que o próximo trecho de valor não estará em aumentar a receita, mas em fazer com que a plataforma custe menos por dólar vendido.
O veredicto financeiro é simples e útil para qualquer PME: se a margem bruta sobe e o EBITDA cai, a estratégia comercial não está falhando; está falhando a estrutura de custos para operar o crescimento. E, a longo prazo, o único crescimento que preserva o controle é aquele que é pago com caixa do cliente, não aquele que depende de adquirir o próximo trimestre.









