{"version":"1.0","type":"agent_native_article","locale":"pt","slug":"pista-de-gelo-ativo-financeiro-mmc59xr5","title":"A pista de gelo como ativo financeiro: quando descarbonizar é uma estratégia lucrativa","primary_category":"sustainability","author":{"name":"Lucía Navarro","slug":"lucia-navarro"},"published_at":"2026-03-04T14:22:43.966Z","total_votes":89,"comment_count":0,"has_map":false,"urls":{"human":"https://sustainabl.net/pt/articulo/pista-de-gelo-ativo-financeiro-mmc59xr5","agent":"https://sustainabl.net/agent-native/pt/articulo/pista-de-gelo-ativo-financeiro-mmc59xr5"},"summary":{"one_line":"A sustentabilidade no patinagem não é apenas uma ideia, mas um fator econômico. A ISU transforma a pista em uma unidade econômica otimizada.","core_question":"A sustentabilidade no patinagem não é apenas uma ideia, mas um fator econômico. A ISU transforma a pista em uma unidade econômica otimizada.","main_thesis":"A sustentabilidade no patinagem não é apenas uma ideia, mas um fator econômico. A ISU transforma a pista em uma unidade econômica otimizada."},"content_markdown":"O patinagem sobre gelo sempre vendeu uma ilusão de pureza: um esporte de precisão, silêncio e controle. Porém, sua infraestrutura é o oposto do que se considera leve. A pista é uma máquina térmica funcionando contra as leis da física, dia e noite, e o sistema esportivo global se apoia em uma logística acelerada. Por isso, os dados são importantes: na temporada 2018-2019, um estudo da **International Skating Union (ISU)** atribuiu às **pistas de gelo 25% das emissões** associadas, enquanto o transporte —principalmente voos— explicava **67%**.\n\nEssa distribuição altera a conversa. Se a maior parte das emissões se concentra na mobilidade, a gestão do evento se torna política climática; e se uma quarta parte provém da pista, o operador do local deixa de ser um ator secundário para se tornar um parceiro crítico do modelo de negócio do esporte. A ISU respondeu com um marco formal: no **26 de janeiro de 2024**, lançou sua **Estratégia de Sustentabilidade** e um plano de implementação ligado à sua **Visão 2030**, com a ambição explícita de **carbono neutro até 2040**. O discurso institucional acompanha, mas o que realmente transforma é a mudança operacional: calculadoras, templates de relatório e guias de eventos que transformam o impacto em contabilidade acionável.\n\nMinha leitura, como estrategista de impacto com foco em viabilidade econômica, é direta: isso é menos uma cruzada moral e mais uma correção de incentivos. A sustentabilidade nas pistas de gelo só escalará quando a descarbonização for tratada como gestão de custos, riscos e reputação, com responsáveis e números auditáveis.\n\n## O Dado que Incomoda: O Gelo emite, mas Voar emite Mais\n\nO primeiro mérito da ISU é brutalmente empresarial: criou uma linha de base. A fragmentação do debate climático nos esportes geralmente se esconde por trás de campanhas inspiracionais, mas a linha de base obriga a priorizar. Se **67%** das emissões estão no transporte e **25%** nas pistas, então a estratégia não pode se limitar a “tornar a pista mais verde” enquanto o calendário, a sede e a estrutura de viagens permanecem intactos.\n\nNesse tipo de poder, essa distribuição de emissões redistribui responsabilidades. A federação e os organizadores concentram as decisões sobre calendário e locais; os times, atletas e patrocinadores impulsionam a mobilidade; e os operadores das pistas arcam com os custos energéticos e de refrigeração que sustentam o espetáculo. Cada um otimiza seu próprio orçamento, mas o carbono agregado é pago pela marca do esporte, sua licença social e, cada vez mais, seus contratos.\n\nPor isso, a ênfase da ISU em ferramentas de medição é mais relevante do que qualquer slogan. Uma **calculadora de sustentabilidade** e **templates de relatório** transformam o que antes era uma discussão etérea em uma rotina necessária: medir as emissões do evento, registrar resíduos, comparar edições e justificar investimentos em melhorias do local. Quando se mede, a economia aparece: que mudanças reduzem os custos operacionais, quais são apenas cosméticas e quais decisões logísticas multiplicam o impacto sem gerar receita.\n\nA consequência prática para o negócio é desconfortável, mas útil: se o transporte domina, a vantagem competitiva de um evento não dependerá apenas do “melhor gelo”, mas do design integral do circuito. O patinagem que aprender a competir com menos voos —por sua estrutura, não por culpa individual— se torna mais defensável em custos e patrocínio.\n\n## A Estratégia da ISU: Da Declaração à Planilha Operacional\n\nA ISU não apenas anunciou uma ambição; formalizou um sistema de execução. Sua estratégia, lançada no **26 de janeiro de 2024**, articula-se como um desdobramento que se estende por vários anos, através do **Compromisso de Sustentabilidade** assinado por seu Conselho, com pilares ambientais, sociais e econômicos para suas disciplinas. Em paralelo, a federação mantém um objetivo de **carbono neutro até 2040** dentro da Visão 2030.\n\nNo âmbito da governança, foi criado o **Grupo de Trabalho sobre Sustentabilidade Ambiental**, liderado por uma integrante do Conselho da ISU, **Maria Teresa Samaranch**, e integrado por atletas como o canadense **Elladj Baldé**. Essa é uma indicação de design institucional: somar legitimidade interna e tração cultural a partir de quem compete e de quem decide. Não é filantropia, é gestão de adoção. Nos esportes, a resistência geralmente não vem da falta de evidências, mas do custo de mudar rotinas e da fricção entre os atores.\n\nO presidente da ISU, **Jae Youl Kim**, enquadrou isso como um dever e um esforço colaborativo para um legado sustentável e inclusivo. Essa narrativa é necessária, mas o decisivo é o aspecto operacional: guias para eventos, medição e reconhecimento por meio dos **Prêmios de Sustentabilidade ISU**, orientados para redução de pegada, otimização energética das arenas, viagens e resíduos. Premiar é uma ferramenta de mercado: cria uma liga reputacional dentro da indústria e impulsiona investimentos que antes eram adiados.\n\nMeu ponto crítico é o seguinte: o sistema só será tão forte quanto sua capacidade de se traduzir em contratos. Ferramentas e prêmios alinham comportamentos, mas a mudança real vem quando o promotor, o local e o patrocinador estabelecem requisitos verificáveis. A ISU está construindo o léxico comum para que isso aconteça.\n\n## Milano Cortina 2026 e o Novo Padrão: Reutilizar Infraestrutura como Estratégia de Capital\n\nOs Jogos Olímpicos de Inverno de **Milano Cortina 2026** surgem como um acelerador porque propõem um modelo de investimento menos dependente do novo. Mais de **90% das sedes** serão existentes ou temporárias, incluindo instalações reformadas de **Cortina 1956**. Esse enfoque não apenas reduz as emissões potenciais; diminui o risco financeiro e pressão de capex, que historicamente tem sido o ponto fraco de muitas candidaturas.\n\nAlém disso, o plano energético dos Jogos está baseado em **100% de eletricidade renovável certificada** e uso de **biocombustível HVO** para máquinas pisa-neve e geradores. E há uma decisão que, embora pareça menor, é uma forma de economia circular aplicada em larga escala: **reutilizar 20.000 peças de mobiliário** provenientes de **Paris 2024**. Isso é disciplina de balanceamento: transformar o que geralmente é um gasto efêmero em um ativo reubicável.\n\nA alimentação, que em megaeventos pode disparar impacto e custo, também está sendo reformulada com aprendizados de Paris 2024: servir **13 milhões de refeições** com menos da metade das emissões de uma refeição francesa média, como referência para o que Milano Cortina adota. Não preciso de mais narrativa aspiracional; o que importa é que essas cifras oferecem permissão política e técnica para exigências a fornecedores.\n\nEsse padrão olímpico impulsiona o restante do circuito por duas vias: normaliza exigências em licitações e eleva a barra para patrocinadores que já não aceitam relatórios vagos. Se um evento de escala olímpica opera com fontes renováveis certificadas e reutiliza infraestrutura, um campeonato continental se torna vulnerável quando continua operando sem medição e sem um plano.\n\n## O Negócio por Trás do “Gelo Sustentável”: Custos, Risco Regulatórios e Licença Social\n\nQuando um local consome energia intensiva e depende de refrigeração, água e operação contínua, a sustentabilidade não é um adorno; é uma linha de custos com volatilidade. A própria ISU sublinha que melhorar a sustentabilidade pode **reduzir emissões e diminuir custos operacionais**, além de fortalecer a resiliência frente às flutuações nos preços de energia. No tabuleiro do CFO, isso é uma forma de proteção: investir em eficiência para estabilizar gastos e diminuir a exposição a exigências futuras de relatórios.\n\nHá também uma verdade incômoda: as pistas representam uma parte relevante do impacto, mas não a maior parte. Por isso, o operador que somente otimiza sua planta sem negociar logística de delegações fica com uma vitória parcial. O modelo extrativo clássico em eventos é transferir custos invisíveis para a comunidade e o meio ambiente enquanto capture receitas de ingressos, direitos e patrocínios. O modelo sustentável real redistribui valor: o local economiza energia, o organizador reduz resíduos e evita sanções reputacionais, a cidade recebe infraestrutura reutilizável e melhores práticas, e o patrocinador compra uma associação com desempenho mensurável.\n\nNesse sentido, as diretrizes e ferramentas da ISU atuam como uma padronização de mercado. Elas permitem comparar eventos, evidenciar melhorias como as registradas nos **European Speed Skating Championships em Hamar (Noruega)** com cortes em resíduos e energia e transformar essas melhorias em argumentos comerciais. O patrocínio, que tradicionalmente compra visibilidade, está migrando para comprar coerência operacional.\n\nHá também um risco estratégico: depender de subsídios ou de gestos de uma única edição. A sustentabilidade que escala é aquela que se paga sozinha, edição após edição, porque reduz OPEX e protege receitas. Se a indústria do gelo deixar esse esforço nas mãos de fundos ocasionais ou de campanhas, a estratégia falhará quando o ciclo econômico se torna difícil.\n\n## A Ordem Correta ao C-Level: Transformar Sustentabilidade em Especificação Contratual\n\nA ISU está movendo o patinagem da retórica para a gestão: linha de base de emissões, ferramentas de medição, governança interna e um horizonte claro até **2040**. Milano Cortina 2026 está elevando a vara com **90% de sedes existentes ou temporárias**, eletricidade renovável certificada e reutilização tangível de ativos. Tudo isso indica uma direção: o esporte está criando um padrão e, com ele, um filtro econômico.\n\nPara os líderes de locais, organizadores e marcas, a ação não é “se juntar” a uma tendência, mas proteger o negócio. A sustentabilidade que importa nas pistas de gelo é aquela que entra nos termos de referência: medição obrigatória, relatórios comparáveis, requisitos energéticos verificáveis, compras circulares e logística projetada para diminuir o componente dominante de emissões, o transporte. Essa é a diferença entre um compromisso que vive em uma apresentação e um modelo que se sustenta na prática.\n\nA máxime para o C-Level é tanto operacional quanto moral, sem dramatização: auditem sua cadeia de valor e escrevam contratos que recompensem eficiência real e penalizem desperdício. Usem o dinheiro como combustível para elevar as pessoas e não as pessoas e o meio ambiente como combustível para gerar dinheiro.","article_map":null}